Falso Culpado · Dossier #01: Habitação em Portugal (2006–2026)
Falso Culpado · falsoculpado.com · Dossier #01: Habitação (2006–2026)A demagogia procura sempre um culpado simples. Os dados contam uma história mais incómoda.
Dossier #01 · Portugal, 2006–2026

Vinte anos a construir menos e a pagar mais

A capacidade de construir que se perdeu em 2008–2014, a venda do crédito malparado e a subida dos fundos imobiliários, a nova procura criada pela imigração, o peso localizado do alojamento local e um preço das casas que, desde 2015, cresce muito acima dos salários. Tudo verificado nas fontes oficiais.

Porque se chama este projeto «Falso Culpado»? Nota editorial · O antídoto empírico contra as simplificações de ocasião
Em números
Casas novas concluídas−60% vs 2006
68.764 → 27.301

Caíram 90% até ao mínimo de 7.148 em 2015. Em 2025, o país concluiu 40% das casas de 2006.

INE / Pordata
Casas vs salários2015–2024
+124% vs +44%

O preço das casas subiu quase três vezes mais do que o ganho médio. A taxa de esforço de compra chegou a 53% no fim de 2023.

BIS/INE · GEP · BdP
Fundos imobiliárioshabitação: 6,6%
11,1 → 21,7 mM€

Valor sob gestão quase duplicou entre 2021 e agosto de 2026. A habitação pesa pouco nas carteiras (Tribunal de Contas, 2023).

BdP · TdC
Procura: estrangeiros residentes×3,4
389 mil → 1,32 M

Entre 2015 e 2025. O Banco de Portugal estima ≈52 mil novas famílias/ano por via do saldo migratório.

SEF / AIMA · BdP
Capítulo 1 · Cronologia

Máquina do tempo

Arraste a barra ou escolha uma fase. O ano escolhido fica assinalado em todos os gráficos da página. Clicar num ano em qualquer gráfico também o seleciona aqui.

2012 Fase II
Governo em funções—
Contexto do ano2012

Capítulo 2 · Construção

A construção: capacidade destruída, recuperação incompleta

Passe o cursor (ou toque) nas barras e pontos para ver os valores de cada ano.

Gráfico 1. Construção: casas, empresas e faturação

Faixas: primeiro-ministro em funções (sem relação causal implícita). 2021–2025 provisórios.

Gráfico 2. Insolvências na construção por ciclo governativo

Empresas de construção com processo de insolvência iniciado (Informa D&B). O pico foi em 2012, com 1.286 empresas; entre 2019 e 2025 foram cerca de 210–275 por ano. As barras tracejadas de 2007–2008 vêm de outra fonte (insolvências decretadas, Instituto Informador Comercial). Edifer e OPWAY reestruturaram-se em 2014–2015; a MSF pediu insolvência em 2018 e a Soares da Costa foi declarada insolvente em 2023. Os anos sem valor oficial localizado aparecem como n.d.

Cada ano é atribuído ao governo em funções durante a maior parte do ano. Médias só com anos que têm dado oficial.
Capítulo 3 · Banca

Do crédito malparado aos fundos imobiliários, em 5 etapas

Como é que as falências de 2008–2014 passaram pelos balanços dos bancos e chegaram aos fundos? Clique em cada etapa para ver os números verificados, as carteiras vendidas e o enquadramento legal.

Capítulo 4 · Fundos

Os fundos de investimento imobiliário

Série mensal do Banco de Portugal (BPstat 12520315), que cobre os 20 anos sem lacunas. Os valores da CMVM, onde existem, ficam a menos de 2% e aparecem na caixa de cada ano. O número de fundos só tem valores pontuais.

Gráfico 3. Valor sob gestão e número de fundos

Dezembro de cada ano, salvo 2026 (agosto). Quebra de série em 2023 (Regime da Gestão de Ativos).
Tribunal de Contas, Relatório n.º 2/2025. Com o DL 7/2015, as rendas e mais-valias dos fundos ficam fora do IRC; a tributação passa para a distribuição (10% para não residentes). Entre 2020 e 2022 os fundos geraram 27 M€ de receita fiscal total, dos quais cerca de 12 M€ de IRC. Em 2023, a habitação era 6,6% das carteiras.
Sobre os "78%". A Colliers indica que investidores do tipo fundo fizeram 78% do investimento imobiliário comercial no 1.º semestre de 2026 (≈1,4 mil M€). Não é a quota dos fundos portugueses em todo o investimento imobiliário.
Capítulo 5 · Migração

Migração e procura de habitação

A população estrangeira residente triplicou numa década. A pressão sobre a habitação chega por três vias diferentes, que se somam: a imigração laboral, a migração de rendimento médio/alto (residentes não habituais, nómadas digitais, expatriados qualificados) e os vistos gold. Parte do salto de 2023–2025 é regularização de pessoas que já viviam no país.

Gráfico 4.

Volume alto · arrendamento e casas baratas

Migração laboral

É o maior volume: atividade profissional e CPLP foram 56% dos novos títulos em 2024. Cria novas famílias (≈52 mil/ano, segundo o Banco de Portugal) e procura sobretudo arrendamento.

44% dos imigrantes são proprietários (79% nos nacionais); 20% vivem em sobrelotação (9%).
Menos pessoas · maior poder de compra

Rendimento médio e alto

Residentes não habituais, nómadas digitais, expatriados qualificados e compradores com domicílio fiscal no estrangeiro, concentrados em Lisboa, Porto e Algarve.

RNH: 41 mil (2019) → 129 mil (2024). Compradores do estrangeiro pagaram +43% por m² (+83% na Grande Lisboa).
Investimento · segmento alto

Vistos gold

Autorizações de residência por investimento. A via imobiliária terminou em outubro de 2023.

6.451 M€ investidos até set. 2023, mais de 90% em imóveis; preços 10–15% mais altos junto ao limiar de 500 mil €.

Os três canais atuam em segmentos diferentes do mercado e nenhum explica sozinho a subida dos preços, que coincide com uma oferta nova que caiu 90% entre 2006 e 2015.

≈52 milnovas famílias por ano por via do saldo migratório (BdP, dez. 2025)
≈14 milfamílias/ano de procura acima da oferta, 2021–2024 (BdP)
20% vs 9%alojamentos sobrelotados: estrangeiros vs nacionais (OM)
5,0%das compras de casas por compradores com domicílio fiscal no estrangeiro (2025)

Migração laboral

Nacionalidades com maior crescimento entre 2023 e 2024 (stock com título). Os trabalhadores estrangeiros ganham em média cerca de 7% menos e estão sobre-representados nas profissões menos qualificadas; 44% são proprietários (79% nos nacionais).

Nacionalidade20232024Novos títulos 2024
Brasil368.449484.59638.713
Índia44.05198.61611.221
Angola55.58992.348n.d.
Cabo Verde48.88565.50715.012
Nepal29.97258.0866.091
Bangladeshn.d.55.19910.848

Fontes: AIMA, Relatório de Migrações e Asilo 2024; Observador; Observatório das Migrações.

Rendimento alto e vistos gold

IndicadorValor
Residentes não habituais (RNH)41.229 (2019) → 128.958 (2024)
Despesa fiscal com RNH620 M€ (2019) → 1.741 M€ (2024)
Vistos de nómada digital (D8)4.472 acumulados até jun. 2024 (MNE) · sem série anual
Vistos gold, acumulado até set. 202312.718 · 6.450 M€ · >90% imóveis
Peso dos vistos gold no investimento em habitação≈3%
Investimento anual dos vistos gold461 M€ (2021) a 921 M€ (2014); não divulgado desde set. 2023
Preço/m² pago por compradores do estrangeiro (3T23)+43% (Grande Lisboa +83%)

O RNH foi extinto no OE2024 e substituído pelo IFICI. A via imobiliária dos vistos gold terminou com a Lei 56/2023.

Investimento dos vistos gold desde setembro de 2023: a AIMA deixou de o divulgar. Não há valores públicos para o ano completo de 2023 (1.º semestre: 403 M€), nem para 2024 e 2025. O número de autorizações continua a ser publicado (2.081 em 2024; 2.685 em 2025).

O que dizem os estudos de impacto

O que ainda não se sabe. Não foi localizado nenhum estudo causal para Portugal que isole o efeito da imigração laboral nas rendas, nem o efeito do RNH ou dos nómadas digitais nos preços. A evidência disponível mostra pressão agregada da procura, efeitos fortes em segmentos e zonas específicas (vistos gold, alojamento local, compradores não residentes) e, ao mesmo tempo, piores condições de habitação entre imigrantes.
Capítulo 6 · Alojamento local

Alojamento local: pouco no país, muito nos centros históricos

Os registos de alojamento local passaram de 14 mil em 2014 para cerca de 120 mil em 2023. São ≈2% do parque habitacional, mas nas freguesias históricas de Lisboa e do Porto competem diretamente com a habitação permanente.

Gráfico 5. Novos registos de alojamento local por ano

RNAL / Turismo de Portugal, via imprensa.

Lisboa: alojamento local por cada 100 habitações permanentes

Freguesias com maior peso, segundo o regulamento municipal de 2025. Acima de 10, a Câmara proíbe novos registos (contenção absoluta).

Câmara Municipal de Lisboa, RMAL 2025.
≈2%do parque habitacional (≈120 mil registos em 5,97 milhões de alojamentos)
67AL por cada 100 habitações permanentes em Santa Maria Maior (Lisboa)
15% · 42%das dormidas turísticas: INE (só ≥10 camas, 2024) e Nova SBE/ALEP (todas, 2023)
75 milregistos com prova de atividade em dez. 2023, de 120,7 mil inscritos

Regulação

DataO que mudou
2014DL 128/2014: regime próprio e registo simples no RNAL
out. 2018Lei 62/2018: áreas de contenção por freguesia; oposição dos condomínios
out. 2023Mais Habitação: suspensão de novos registos em apartamentos fora do interior; contribuição extraordinária de 15%; isenção fiscal para quem passasse a arrendamento
set.–nov. 2024DL 57/2024 e DL 76/2024: fim da contribuição e da suspensão nacional; os municípios decidem
2024–2026Lisboa suspende (2024) e cria contenção absoluta com rácio ≥10% (dez. 2025); DL 151/2026 prolonga regime transitório até ao fim de 2026

Estudos de impacto

Leitura. O alojamento local é mais uma parte da soma: efeitos fortes e documentados nos preços dos centros históricos e das zonas turísticas, peso pequeno no parque do país. Não foi localizada nenhuma avaliação oficial do efeito das restrições de 2023, nomeadamente de quantos alojamentos passaram ao arrendamento de longa duração.
Capítulo 7 · Salários e preços

Salários e preços das casas

Entre 2006 e 2015 os salários subiram e os preços caíram. Depois de 2015 a relação inverteu-se. Mude a base do índice e escolha termos nominais ou reais (descontada a inflação).

Gráfico 6. Preço das casas, salários e inflação (índice)

Preço das casas: índice BIS (igual ao IPHab do INE desde 2009). Ganho médio: Quadros de Pessoal, até 2024 (quebras de série em 2010 e 2014).

Taxa de esforço (Banco de Portugal)

Prestação de uma casa de preço mediano a dividir pelo rendimento mediano. O Banco de Portugal considera sobrecarga acima de 40%.

<30%entre 2009 e 2021
53%no pico, 4.º trimestre de 2023
48%nos três primeiros trimestres de 2025
9 → 104municípios acima de 40% (2019 → 2023)
Arrendamento. O peso da renda no rendimento mediano subiu de 36% (2019) para 47% (início de 2025). A renda mediana dos novos contratos chegou a 10,17 €/m² no 2.º trimestre de 2026 (+10,2%).
Em 20 anos, em termos reais (2006–2024): ganho médio +24%, preço das casas +44%. O salário mínimo, fixado por decisão política, acompanhou os preços no conjunto do período (+125% vs +131% até 2025).
Capítulo 7 · Indicadores do INE

Preço, avaliação bancária e renda por m²

Valores em €/m². A renda de 2025 já vem da série revista pelo INE em junho de 2026 (≈50% mais contratos) e não deve ser comparada diretamente com 2024. A avaliação de 2009–2019 é a média anual; desde 2023, a mediana. O valor de 2013 é suspeito e está por confirmar.

AnoPreço mediano (vendas)Avaliação bancáriaRenda mediana (novos contratos)Ganho mediano mensal
Fontes: INE via Lusa, ECO, RTP, Dinheiro Vivo; DREM (avaliação 2009–2019; ganho mediano).
Anexo A · Dados

Série histórica, 2006–2026

Clique nos cabeçalhos para ordenar. Filtre por governo ou pesquise por ano. "n.d." = sem valor oficial localizado (não estimado).

Var. preços 2006–2009: índice BIS (o IPHab do INE começa em 2009). 2026: preços = homóloga do 2.º trimestre; fundos = agosto (BdP). Insolvências 2014, 2019 e 2020 implícitas nas variações publicadas; 2007–2008 só na exportação CSV (outra fonte). Estrangeiros 2023–2025: títulos válidos (quebra de série).

Anexo B · Fontes

Fontes e notas metodológicas

Cada cartão abre a nota com o que a fonte mede, as limitações e as ligações diretas. A lista completa tem 121 fontes.

Cobertura das séries

Anos com valor oficial localizado em cada série. As lacunas ficam em branco no gráfico e na tabela, sem estimativas.

SérieAnos com valorLacunasFonte principal
Fogos concluídos2006–20252026 só trimestralINE / Pordata
Empresas e volume de negócios da construção2006–20242025–2026 por publicarINE / Pordata
Insolvências na construção2010–2016, 2019–2025 (2007–2008 de outra fonte)2006, 2009, 2017, 2018Informa D&B
Preço das casas2006–2025 (2006–2009 índice BIS)2026 parcialINE / BIS
Valor dos fundos imobiliários2006–2026 (agosto)—Banco de Portugal
Número de fundos2006, 2007, 2011, 2012, 2018, 2021, 2023, 2024restantes anosCMVM / APFIPP
Estrangeiros com título2006–2025quebras em 2007 e 2023SEF / AIMA
Vistos gold: número2012–2025—SEF / AIMA
Vistos gold: investimento2014–20222012–2013; desde set. 2023 a AIMA não divulgaSEF via imprensa
Alojamento local (registos RNAL)2014–2019, 2023, 2026; novos registos 2014–2023stock de fim de ano 2020–2022, 2024–2025; novos registos 2020Turismo de Portugal (RNAL) via imprensa
Residentes não habituais2017, 2019, 2021–2024restantes anosTdC / IGF
Ganho médio / salário mínimo2006–2024 / 2006–2026ganho médio 2025 por publicarGEP / DGERT